Não foi Fred, Dorival Júnior, tampouco Diego Cavalieri. O destaque do Fluminense em 2013 não marcou nem evitou gols, mas teve papel fundamental para manter o Tricolor na Primeira Divisão. A atuação do advogado Mário Bittencourt no julgamento que puniu Portuguesa e Flamengo pelas escalações de jogadores irregulares foi um dos assuntos mais repercutidos no fim do ano passado nas redes sociais.
– Fiquei bastante surpreso porque torcedores de outros clubes me abordaram na rua falando sobre o julgamento e elogiaram minha atuação. Foram elegantes e mostraram reconhecimento – disse o advogado do Fluminense em entrevista ao LANCE!Net.
Tricolor e defensor da lei desde o berço, como o próprio Mário Bittencourt enfatiza, ele advoga para o Fluminense há quinze anos. Num ambiente de instabilidade, como costuma ser o de um clube de futebol, Mário é uma espécie de sobrevivente. Trabalhou nas gestões de David Fischel, Roberto Horcades e agora Peter Siemsen. Conhecedor como poucos do clube das Laranjeiras, Mário admite que planeja presidir o Flu no futuro:
– Tenho muita vontade de ser presidente do Fluminense um dia, mas não é o momento ideal para falar disso. Peter está começando o segundo mandato e ainda tem muito o que fazer. Estou ao lado dele e tenho certeza de que entregará o CT, entre outras coisas. Hoje não sou candidato. No futuro, quem sabe?
Enquanto isso, Bittencourt garante que acredita nas teses que defende ao ponto de discutí-las com ênfase em situações de rotina:
– Minha esposa disse uma vez no almoço em família que eu ia passar mal pela forma que me expressava. Minhas defesas são verdadeiras. Não é atuação ensaiada no espelho. Se não falasse dessa forma no dia a dia não faria um bom trabalho. Daria tudo errado no tribunal
Processos são todos detalhados
Dificilmente será por negligência do departamento jurídico que o Fluminense falhará nas próximas temporadas. Viciado em trabalho, Mário Bittencourt é metódico ao detalhar cada processo do clube desde o futsal ao time de futebol profissional.
Tudo é rigorosamente documentado e encaminhado ao Fluminense. Nos últimos cinco anos foram 534 julgamentos. Apenas em 2013 foram totalizados 60 julgamentos, 21 apenas da categoria profissional, 19 teses de defesa acolhidas sendo 12 absolvições e sete desclassificações, reduções, liberações ou advertências de penas. Em contrapartida, o advogado teve sete teses de defesa que não foram acolhidas pelo tribunal.
Mário Bittencourt também atua na área trabalhista para o Tricolor e foi responsável por colocar o clube de volta ao Ato Trabalhista. Enquanto mantém dedicação quase integral ao time profissional, outros quatro advogados auxiliam nas outras demandas.
"Pequeno Príncipe" é defendido
O advogado do Fluminense foi bastante criticado por alguns formadores de opinião por ter utilizado na argumentação do caso da Portuguesa um trecho do livro "Pequeno Príncipe". Mário explicou por que fez uma citação à obra:
– Fiz uma interpretação não literária justamente porque o regulamento previamente assinado não comporta subjetividades como a literatura. Todos os clubes assinaram o regulamento antes do campeonato e "rasgar" a regra seria quebrar o princípio isonômico que norteia as competições desportivas. Outras tantas situações no direito desportivo e outros ramos do direito podem, por óbvio, conter análises subjetivas. No caso em questão, de escalação irregular de atleta, o critério é objetivo e simples, não havendo margem à interpretação. "Estava suspenso, foi relacionado ou jogou, perde os pontos". Regulamento é Regulamento. Por isso a citação de parte do livro.
Problemas resolvidos com Tenório
Assim que o presidente Peter Siemsen anunciou Ricardo Tenório como novo vice de futebol uma dúvida foi levantada acerca da relação do dirigente com Mário Bittencourt, uma vez que em 2009, no período eleitoral, ambos trocaram provocações no debate presidencial entre o atual mandatário e o opositor Júlio Bueno. O advogado garantiu que qualquer diferença que tenha existido foi resolvida:
– Antes das eleições o Tenório participou comigo, o Peter e a Flusócio da intervenção no futebol que gerou a arrancada contra o rebaixamento. Eu e o Peter acreditávamos que um dia o Tenório voltaria. Aconteceu agora e no dia que ele foi anunciado como vice de futebol me telefonou, marcou um almoço e tivemos uma ótima conversa. Aquela situação foi um momento da política do clube. Defendíamos coisas diferentes. O importante é que estamos unidos para buscar o melhor para o Fluminense.
Bate-Bola
Mário Bittencourt
Advogado do Fluminense
Muita gente tem dito que você pode entrar na galeria dos ídolos tricolores. Até bandeira prometeram fazer. Você se considera ídolo?
Não me sinto um ídolo mesmo. Ídolo da torcida é o jogador que faz gols, traz vitórias, ganha títulos. Ídolo é uma coisa mais ligada ao campo de futebol. As brincadeiras são saudáveis. Tanto as dos torcedores do Fluminense como as dos torcedores adversários. Adversário não é inimigo. As brincadeiras saudáveis não me incomodam em nada. Fazem parte do lado positivo do futebol.
Existe algum trabalho de conscientização para os atletas sobre as possíveis punições do tribunal?
Todo ano nós fazemos palestras para todas as categorias e o futebol profissional. Eu exponho os artigos nos quais os jogadores são mais julgados, mostro para eles o que diz o artigo, qual a pena que eles podem pegar e exibo vídeos de casos concretos. Treinadores e dirigentes também participam. É uma palestra de 45 minutos e bem didática.
Teve algum caso mais complicado neste ano?
O caso do Michael mexeu comigo de forma muito intensa. Além do trabalho técnico dá um desgaste emocional muito grande. Ele deu palestras, se comprometeu e o tribunal enxergou essa dedicação.
O Fluminense foi criticado por entrar como terceiro interessado nos julgamentos de Flamengo e Portuguesa. Mesmo sendo um direito legal do clube, a postura, para alguns, foi considerada desnecessária. Como você observa hoje a conduta tomada pelo clube?
Ser ético ou ser moralista é não defender o direito? O Flu foi ético e moral. Falta de ética seria para agradar meia dúzia de pessoas não lutar pelo interesse do meu cliente. Imoral e antiético é tentar criar uma tese para desrespeitar um regulamento que foi assinado e cumprido por todos os clubes na competição.
Normalmente nos momentos de crise você é convidado para ajudar no departamento de futebol. Como e por que isso ocorre?
Passei pelo futebol em 2009 naquela arrancada contra o rebaixamento. Fiquei de setembro de 2009 a abril de 2010. Foi uma passagem importante, interessante para mim. Voltei em 2011 logo depois da saída do Muricy quando o clube estava em último na fase de grupos da Libertadores. Trouxemos o Enderson, conseguimos dar aquela arrancada e classificamos naquele jogo histórico contra o Argentinos Juniors. O Heitor D'Alincourt, amigo e profissional do clube no Flu-Memória diz uma coisa para mim que é até engraçado porque eu nunca tinha para pensar antes. Ele fala que toda vez que passo pelo departamento de futebol estou envolvido em jogos épicos. Situações espetaculares. Acho que é uma coincidência. Acredito no trabalho, não numa força estranha, mas o Heitor é meu amigo e acha que é uma questão de aura. Por ser um cara muito apaixonado pelo clube eu passaria essa paixão para os atletas na maneira de falar. Quando peço a palavra faços os meus discursos muito inflamados como no tribunal. No fim de 2013 novamente me chamaram para ajudar e junto com o Marcão o Flu venceu dois jogos e empatou um depois que entramos. Costumo estar mais presente nos momentos de dificuldade. Quando tudo está dando certo gosto de estar na arquibancada torcendo com minha família. Sou torcedor do Fluminense, mas quando está dando errado, o Flu passa por dificuldades, aceito o convite na hora. É minha maior paixão imaterial.
As cinco defesas mais importantes
Ato Trabalhista
Flu voltou ao Ato Trabalhista, que parcela as dívidas da categoria. Cabe ressaltar que as penhoras sofridas no ano passado foram decorrentes de dívidas fiscais, que têm outra natureza.
Caso Michael
Atacante flagrado no doping pode ter pena convertida para oito meses.
Absolvição de Fred
Fred foi absolvido de uma agressão a Júnior César na véspera de um importante jogo contra o Palmeiras.
Caso Jéferson
Vasco escalou o atleta Jéferson de forma irregular, Flu entrou como terceiro interessado e assim como no caso da Portuguesa, classificou no Carioca.
Campeonato Carioca de 2002
Campeão Carioca no ano do centenário do clube, o título do Fluminense foi homologado pela Federação Carioca apenas em 2009 após julgamento no TJD/RJ. Até então a conquista estava indefinida em razão de uma ação do Bangu que questionava a atuação da arbitragem na semifinal.
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