Não faz muito tempo. Em 11 de novembro de 2012, o Fluminense vencia o Palmeiras por 3 a 2, em Presidente Prudente, e confirmava a conquista do tetracampeonato brasileiro com três rodadas de antecedência. Um título incontestável de um forte elenco, que mais uma vez iniciaria a temporada seguinte como um dos favoritos para realizar o maior sonho de seus torcedores: levantar a taça da Libertadores. Pouco mais de oito meses (exatos 256 dias) depois, a realidade tricolor está longe da esperada. E, coincidentemente, a maior crise dos últimos três anos no Flu vem justamente no período da decisão da competição sul-americana.
Já são quatro derrotas seguidas no Brasileiro e o modesto 14ª lugar na tabela. É uma realidade diferente para os tricolores, acostumados a ocupar as primeiras colocações nos últimos anos - entre 2010 e 2012, o time liderou 39 (quase 35%) das 114 rodadas possíveis. Em meio a derrotas, falta de dinheiro para reforços e venda de titulares, como o apoiador Thiago Neves e o atacante Wellington Nem, o técnico Abel Braga tenta se equilibrar na linha tênue entre o reconhecimento por seu trabalho recente e a necessidade urgente de bons resultados.
Na última segunda-feira, parte da diretoria se reuniu para buscar opções para a possível saída do treinador, que está há mais de dois anos no cargo. Diante de uma mudança de quadro tão rápida, segue os principais fatores que explicam a caminhada irregular do Fluminense em 2013.
Queda de rendimento de peças-chave
O Fluminense conquistou o tetra apoiado em uma espinha dorsal que fez a diferença durante o Brasileirão de 2012. Mais precisamente cinco jogadores: o goleiro Diego Cavalieri, o zagueiro Gum, o volante Jean e os atacantes Wellington Nem e Fred. Todos, sem exceção, caíram de rendimento na atual temporada.
Cavalieri já falhou em momentos importantes do ano, como a eliminação para o Olimpia nas quartas de final da Libertadores; Gum chegou a ser reserva; e Wellington Nem, mesmo com alguns gols no início do ano, esteve longe de repetir as atuações decisivas de 2012 e já foi negociado com o Shakhtar Donetsk. Ainda é possível somar à lista outros dois nomes importantes do elenco: Deco e Thiago Neves - este também já vendido.
- Em um clube com um presente tão vencedor é natural que haja uma queda em algum momento. Infelizmente, o nosso primeiro semestre foi de queda. Vejo até como efeito do excelente 2012 que tivemos, com a melhor campanha da fase de grupos da Libertadores, o título carioca, o tetracampeonato brasileiro... Após a queda, é a hora de retomar o caminho das vitórias. A má fase não nos faz deixar de acreditar na qualidade do elenco - resumiu o diretor executivo de futebol Rodrigo Caetano.
Fator Fred
Entre os jogadores com queda de rendimento, chama a atenção o caso de Fred, também por seus números. Se ele está em alta na Seleção, nas Laranjeiras está longe de igualar a atuação do ano passado - quando foi destaque na campanha do 31º título carioca e do tetra brasileiro, com muitos gols e grandes atuações.
| 2013 | 2012 |
|---|---|
| 17 jogos | 24 jogos |
| 6 gols | 16 gols |
| OBS: até 25 de julho | |
Fred ainda tem números muito tímidos pelo Fluminense nos quase oito meses desta temporada. Foram apenas 17 jogos e seis gols marcados, uma média de menos de duas partidas e um gol a cada 30 dias. No mesmo período do ano passado, o desempenho era bem superior: 16 gols em 24 partidas.
Para piorar, o atacante já desfalcou o clube por dois longos períodos em 2013: estiramento na panturrilha direita (um mês) e convocações para a seleção brasileira (seis jogos).
Falta de dinheiro para reforços
Depois da temporada vitoriosa com dois títulos (de Carioca e Brasileiro), a diretoria do Fluminense anunciou que o maior reforço do time para 2013 seria a manutenção da base do tetra. Dito e feito: todos os jogadores permaneceram no clube no primeiro semestre. Mas a estratégia não foi por opção, e sim por necessidade. Faltavam recursos para reforçar mais o time, o que se mostrou necessário com o passar dos meses.
Diferentemente do Tricolor, todos os outros clubes brasileiros que terminaram 2012 em alta se reforçaram. O Atlético-MG contratou Josué e Diego Tardelli. O Corinthians apostou em Alexandre Pato e Renato Augusto. Já o Grêmio fechou com Barcos e Vargas.
- Quando fizemos a opção de apenas manter o elenco, nós a tomamos por vários motivos. Entre eles, a falta de capacidade de investimento. Se tivéssemos condições, teríamos contratado. Não é porque um clube mantém seu elenco que ele não quer melhorá-lo. Manter a base por si só é estagnar, parar no tempo. Não tivemos condições mesmo. As dificuldades predominaram no primeiro semestre. Os problemas financeiros começaram logo após o título. E até hoje os jogadores estão sem receber parte da premiação pelo tetra. Se estivesse tudo regularizado, tentaríamos contratar um ou dois jogadores no início do ano. Mas só conseguimos preencher lacunas - lembrou Caetano.
Contratações não vingaram
As lacunas preenchidas - segundo as palavras de Caetano - no início do ano foram quatro: um reserva para a lateral esquerda, outro para a lateral direita, uma opção para o lugar de Deco e mais um jogador de velocidade para o ataque. Chegaram às Laranjeiras Rhayner (ex-Náutico), Wellington Silva (ex-Flamengo), Monzón (ex-Lyon) e Felipe (ex-Vasco). De todos, apenas Rhayner conseguiu algum destaque.
O atacante chegou a ganhar a vaga de titular e conquistou a torcida com seu carisma, sua entrega em campo e, principalmente, o inusitado jejum de gols. Hoje está no banco. Por outro lado, Wellington vive às voltas com lesões, Felipe pouco é utilizado, e Monzón, chateado com as poucas oportunidades, já pediu para ser liberado do contrato de empréstimo até dezembro e se transferiu para o Catania.
Salários atrasados
A falta de dinheiro para contratar não foi o único problema financeiro do Fluminense na temporada. Tampouco a falta de verba para quitar a premiação pelo título brasileiro. Os atrasos dos salários de jogadores e funcionários voltaram a ser rotina. Os vencimentos de junho, por exemplo, ainda estão em aberto.
O principal entrave ainda são as penhoras que asfixiam o fluxo de caixa do Tricolor. Por causa delas, por exemplo, o dinheiro das vendas de Thiago Neves e Wellington Nem sequer entrou no clube. O presidente Peter Siemsen tem ido a Brasília com frequência para tentar resolver o assunto, já que não consegue se entender com a Procuradoria Geral da Fazenda do Rio de Janeiro. Enquanto isso, o Flamengo, mesmo se propondo a pagar quantias mensais inferiores às oferecidas pelo Flu, já conseguiu um acordo.
- Por que a Procuradoria prefere tentar penhorar os recursos decorrentes de transação de atletas, inviabilizando que o Fluminense cumpra com seu outros compromissos e gerando assim novas dívidas com a própria Receita? Isso em vez de receber num curto espaço de tempo e de maneira organizada, permitindo que o Flu continue honrando seus compromissos como vem fazendo nos últimos dois anos? - reclamou recentemente Peter.
Sorte, cadê você?
O roteiro em 2012 foi mais do que conhecido: pressão do adversário, defesas de Cavalieri, arrancada de Wellington Nem, gol de Fred, sofrimento nos minutos finais e vitória. Foi assim que o Fluminense levantou o seu quarto título brasileiro. Porém, se no ano passado a sorte por muitas vezes se fez presente, na atual temporada ela anda distante das Laranjeiras.
Nos últimos jogos, o Tricolor cria chances e até domina o adversário em alguns momentos. Mas perde muitos gols e acaba sofrendo quando é atacado. Foi assim contra Botafogo, Coritiba, Portuguesa... Na derrota para o Inter, um lance simbólico. Placar de 3 a 2 para o Colorado, 47 minutos da etapa final, pressão toda do Flu. Após cruzamento na área, Fred dividiu de cabeça com o zagueiro. A bola desviou no rosto de Samuel, tirou o goleiro da jogada e caprichosamente saiu rente à trave (veja no vídeo acima). Nas redes sociais, muitos torcedores lamentaram com a mesma frase: "No ano passado essa bola entrava...".
- Está faltando sorte mesmo. Eu me lembro do jogo contra o Náutico no ano passado. A bola batia na trave, o Cavalieri fazia milagre... Fomos ao ataque uma vez e fizemos o gol. A tônica era essa. Agora as coisas estão mais difíceis. Nos movimentamos bem, criamos chances, mas quem faz milagre é o goleiro adversário. Precisamos ter tranquilidade porque a fase é complicada. Todos os adversários entram mais atentos contra o Fluminense. Querem sempre vencer o atual campeão. Pelo que fizemos no ano passado, os adversários jogam com mais vontade ainda. Mas uma hora essa sorte vai mudar - opinou o apoiador Wagner.
Desempenho ruim em grandes jogos
A poucos dias do início de agosto, o Fluminense ainda busca a primeira vitória sobre um grande adversário em 2013. Ao todo, já foram 12 oportunidades - Flamengo, Botafogo (três jogos), Vasco (três jogos), Grêmio (dois jogos), Olimpia (dois jogos) e Internacional - com oito derrotas e quatro empates. Nos clássicos cariocas, então, o desempenho é sofrível: sete jogos, cinco derrotas e dois empates.
É um aproveitamento muito diferente do apresentado diante dos rivais do Rio no ano passado, quando o Fluminense conquistou sete vitórias em 13 clássicos. A próxima oportunidade para acabar com o incômodo jejum será neste domingo, diante do Grêmio, às 16h (de Brasília), em Porto Alegre, pela nona rodada do Campeonato Brasileiro.
- As equipes se fortaleceram, mas nosso elenco tem muita qualidade. Passamos por um ciclo vitorioso, e quem tem de dar a resposta agora são os jogadores. O ambiente no clube é muito bom. Por isso tenho certeza de que essa questão da falta de vitórias sobre um grande adversário vai acabar naturalmente. Estão todos empenhados para isso - garantiu o vice-presidente de futebol Sandro Lima.
0 comentários:
Postar um comentário